Crianças ou infâncias: como vivem os pequenos neste início de século (1)

Línea temática: Educación Básica: (inicial, preescolar, primaria, secundaria) y Media

Introdução

Apensadora Hannah Arendt (1996), ao tratar da modernidade mostrou que ela é fruto de uma crise que vem ocorrendo na religião, na cultura e na autoridade. Dentro de uma perspectiva cultural, acontece pelo fato de que se tenta enfrentar o futuro sem as bases do passado. Nenhuma cultura se constrói sem alicerçar-se nas experiências anteriores. Logo, a modernidade, se é que podemos chamar o que vivemos hoje, é fruto de um longo e doloroso processo da construção humana, em que o passado é fundamental para a construção do futuro. Além disso, a crise da sociedade estende-se aos diferentes campos e manifesta-se de diversas formas. Não se pode considerá-la como um fenômeno local, pois nesse caso não haveria a necessidade de serem construídas políticas públicas para a infância e para a educação infantil.

Não existem mais respostas para os problemas atuais e, simultaneamente, é impossível o isolamento das circunstâncias concretas que afetam a realidade global. As crianças não têm mais lugares seguros para crescer e na medida em que a educação moderna não respeita a infância destrói, as condições necessárias ao seu desenvolvimento. No entanto, parece ser incoerente pensar-se em negar os métodos tradicionais, apenas em pró do “século da criança” cometendo-se um o erro de adultizar os pequenos. Eles não são simplesmente pessoas, mas cidadãos de têm direitos e devem ser vistos e ouvidos.

Porém, que por mais que se tente considerar o bem estar infantil, não se pode esquecer que a criança nasce em um mundo preexistente, que não conhece e sua inserção no contexto se realiza através do brincar, porque resgata aspectos do passado, criando possibilidades de viver o presente e transformar o futuro.

A questão central da educação, não tem por base apenas as grandes mudanças vividas do século XXI, Trata-se do surgimento de um desequilíbrio entre o passado e o futuro, pois só a passagem gradual de um momento para o outro pode permitir as transformações do presente. Entre passado e futuro deve existir um movimento processual de modo a garantir o equilíbrio da sociedade como um todo e de cada um individualmente.

Quando o elo entre a tradição romana se rompeu , estabelecendo uma separação entre o passado e o futuro, deixou de existir uma importante condição para o desenvolvimento do pensamento.

Adiciona-se a essa crise o desenvolvimento da tecnologia que tem modificado as relações entre o homem e a natureza, não havendo uma preocupação maior com a sua construção ou preservação.

Os perigos dessa forma de ser e de viver estão associados à existência da pluralidade humana, condição fundamental para a vida. Ressalta-se, ainda, que “La época moderna, con su creciente alienación del mundo ha desembocado en una situación que el hombre, vaya donde vaya, sólo se encuentra a sí mismo” (ARENDT, 1996: 99). Na realidade salienta que não estamos preparados para pensar de forma a relacionarmos o passado e o futuro, garantindo uma melhor estruturação do presente, porque com o rompimento do fio da tradição, o futuro deixou de ser uma condição peculiar para o desenvolvimento do pensamento, se constituindo apenas como uma experiência de poucos no presente.

A crise do mundo moderno manifesta-se diferentemente em cada país e em todos os setores. Não se requer, verdadeiramente, uma grande imaginação para detectar os avanços das ameaças à humanidade, o que se reflete também na vida das crianças, de modo especial, no seu brincar e no direito à infância.

A sociedade globalizada transformou-se em uma sociedade de massas, onde a situação de cada indivíduo mudou muito, sobretudo quando alguns privilégios passaram a ser relevantes para apenas algumas classes sociais.

Embora, atualmente, haja grande preocupação com os pequenos e, consequentemente, na educação infantil, não avançou na educação e esqueceu-se que algumas atividades são características do desenvolvimento humano, tanto do ponto de vista físico e mental quanto em uma perspectiva sócio cultural.

A preocupação, entretanto, não se refere aos conflitos entre os indivíduos e a sociedade, mas entre os adultos e as crianças, devido ao aparecimento e à valorização de uma cultura de massas na qual elas têm perdido o direito à infância e a possibilidade de brincar.

Tornam-se, portanto objetivos, desta investigação, estabelecer relações entre os estudos de Ariès (1981), Heywood (2004) e Stearns (2006) sobre a infância e algumas obras de arte apreciadas em diversos museus visitados[1], observando qual o papel do brincar e suas transformações nas diferentes sociedades humanas.

As preocupações iniciais deram origem à algumas questões :

_Quem é a criança hoje?

_ Em que contextos vive?

_ Que atividades realiza?

_ Como são suas brincadeiras?

Para responder às questões estabeleceu-se a origem e os caminhos percorridos pela infância na história através, do referencial teórico e de visitas a espaços culturais, já mencionados. A investigação buscou a gênese dos fazeres criança especialmente o seu brincar para refletir com os educadores conscientizando-os da relação criança/infância/brincar e do seu valor no passado, presente e futuro.

Percebeu-se um verdadeiro casamento entre os estudos teóricos sobre a infância e as obras de arte esclarecendo as origens do brincar e o seu papel nos diferentes contextos históricos e sociais.

 Criança/ infância: esclarecendo conceitos

Buscou-se a natureza dos objetos que fizeram parte do universo infantil e qual o papel das brincadeiras.

Ao buscar o referencial teórico percebeu-se certa confusão no uso dos termos, infância e criança que, às vezes, foram utilizados como sinônimos. Daí a necessidade de esclarecê-los.

A palavra criança[2], origem latina, “creator, creatoris” designa um ser de pouca idade, merecedor apenas de alguns cuidados físicos, razão pela qual o vocábulo está associado ao seu desenvolvimento biológico .

O ser humano é a espécie que mais demanda atenção e cuidados para se desenvolver, permitindo concordar com Stearns (2006), que as crianças sempre existiram, pois, ao contrário, a espécie humana não teria sobrevivido.

Para ele os povos nômades caçadores e coletores tinham muita dificuldade em cuidar dos pequenos, devido aos deslocamentos percorridos. Somam-se a tais obstáculos as intempéries, a falta de alimentos para todo o grupo, o enfrentamento com animais e a ausência de higiene. Sobreviver, nessas condições, tornava-se quase impossível determinando que em algumas sociedades fossem adotados procedimentos de controle da natalidade, como a prática do infanticídio, do aborto, por exemplo. Poucas famílias tinham mais do que quatro crianças durante e era comum que elas auxiliassem as mulheres na coleta de sementes. Dessa forma os adultos controlavam as crianças.

Elas possuíam um papel reduzido na sociedade, porque não tinham relevância do ponto de vista da manutenção do grupo. Morriam cedo, eram acometidas por diversas moléstias e dificilmente eram enterradas.

Se a palavra criança designa um ser de pouca idade e a-histórico, o termo infância[3] oriundo do latim “infans, infantis”, designou aquele que não falava e que não tinha voz na sociedade.

Segundo Corsaro (2011), de acordo com a da Sociologia da Infância, a criança é vista atualmente “como produto ou construção social”[4], portanto, como um elemento ativo e participante na sociedade em que vive.

A infância, atualmente, é tratada como uma categoria social, pois explicita o papel da criança no seu grupo social justificando o uso de diferentes termos.

Tal abordagem é complementada pelos estudos de Vygotsky (1988) que defendem o desenvolvimento humano como um processo de aprendizagem do mundo Tal perspectiva não abrange os aspectos reprodutivos da cultura, mas os inovadores, criativos e transformadores.

Para o sócio-interacionismo a brincadeira favorece que a criança saia da zona de desenvolvimento real, da etapa em que se encontra, para a zona de desenvolvimento potencial, onde pode chegar com suas aprendizagens. Tanto o brinquedo quanto a brincadeira favorecem a passagem de um momento para o outro. A atividade lúdica ou o próprio brinquedo se constituem e um processo de mediação entre os pequenos e o mundo que os cerca. Por essa razão foram considerados pelo estudioso como área de desenvolvimento proximal[5].

A apropriação pelas crianças das rotinas dos grupos ocorre através dos jogos e das brincadeiras, quando reproduzem as atividades dos adultos. Daí a similaridade do brincar e dos brinquedos em diversos grupos sociais na história.

Ariès (1981),apontou que os jogos e as brincadeiras ocupavam um lugar de destaque nas sociedades antigas, havendo duas posições antagônicas sobre sua prática. A maioria da população os admitia sem reservas ou discriminação, enquanto uma minoria poderosa e culta de moralistas os condenava.

Foi possível perceber, anteriormente, como os povos nômades tiveram muita dificuldade em cuidar dos pequenos, portanto não deixaram registros de seus brinquedos,

Contudo, salienta-se que os poucos objetos enterrados com os pequenos ou nos túmulos de seus professores, mostraram que, suas famílias tinham um status diferenciado.

Os brinquedos e suas contribuições para a historia da infância

Partindo do princípio de que a infância é um processo de construção social e que explicita o papel da criança em cada sociedade, percebeu-se que poucas referências existem sobre ela.

Foram inúmeras as variações da cultura infantil nas sociedades antigas, pois, em alguns grupos as crianças trabalhavam e realizavam atividades pesadas para aprender. Em outros, ao contrário, havia um choque nesse tipo de tratamento. Há, porém, uma enorme dificuldade de encontrar evidências que possam documentar e subsidiar o estudo dos brinquedos e das brincadeiras infantis nos diversos contextos.

Quando as sociedades primitivas, na Europa, tornaram-se agrícolas, ocorreram grandes mudanças, que culminaram em um novo sistema econômico, a agricultura, refletindo-se vida das crianças e das suas famílias e redefinindo a utilidade do seu trabalho no grupo social. Com o sedentarismo as taxas de natalidade tornaram-se mais altas, porque os pequenos passaram a representar mão de obra importante dentro da agricultura familiar. O aumento da prole permitiu que as crianças pudessem se identificar mais com seus pares, favorecendo o surgimento e a aprendizagem de muitas brincadeiras.

O Museu de Antropologia da cidade do México, mostra que, entre os diferentes grupos indígenas da América Central, a vida das crianças ocorria dentro da sociedade adulta característica frequente não apenas lá, mas de outros grupos em diversas épocas. Entre os maias alguns bebês apresentavam uma cabeça longilínea, fruto de um enfaixamento do crânio, peculiaridade própria dos filhos dos governantes.

Isso confirmou a hipótese que, embora os pequenos não tivessem um papel na sociedade maia, havia uma diferenciação entre os pertencentes às classes sociais mais altas supondo que gozassem de certos privilégios.

Na arte antiga haviam bonecas de madeira, ouro, argila, terracota e ossos, encontradas nas pesquisas arqueológicas, indicando que teriam servido para representar as próprias figuras humanas, símbolos religiosos ou mágicos.

Registrou-se uma estátua de mármore de um adulto da qual surge a cabeça de uma menina que, acordo com Rose- Marie y Rainer Hangen (s/d), tratava-se da princesa Neferuré, filha da faraó Hatshepsut, junto com seu educador Senenmut. Junto dela descobriram-se objetos infantis que ofereceram pistas da sua vida.

No Egito, devido ao clima quente, os pequenos, passavam muito tempo ao ar livre brincando, dançando, montando em jumentos e pulando corda. Possuíam animais domésticos e os reproduziam nos brinquedos. Originalmente eram estáticos e, posteriormente, ganharam rodas permitindo deslocamento. Possuíam piões de cerâmica rodados com um cordão enrolado em torno do dedo, bolas coloridas de argila repletas de sementes com a função de chocalho, e, animais com a cabeça articulada e os olhos de vidro. Não havia discriminação entre as atividades dos meninos e das meninas.

Os jogos de bola, também existiram naquela civilização e serviam para testar habilidades.

Os brinquedos em diversas civilizações

Como no Egito, encontraram-se objetos pertencentes às crianças na Grécia e em Roma sociedades essas que segundo Marrou (1973), não tinham muito interesse entre as crianças.

Entre os gregos, ânforas existentes no Museu de S. Petesburgo, evidenciam a figura Zeus jogando bola com sua aia, mostrando a universalidade do brinquedo. Registro desse jogo foi encontrado na literatura, na obra de Homero, “Odisséia”. Como os helênicos os romanos também brincavam com o aro e com a corda, tinham bonecas, as “puppae”[6], algumas confeccionadas em madeira ou marfim articuladas e utensílios de barro expostos, no Museu de Tarragona[7]. Possuíam apitos coloridos de cerâmica, “siurrells” [8], muito comuns no Arquipélago das Baleares.

Nas residências dos aristocratas os aposentos das crianças romanas eram identificados por mosaicos, como o Labirinto do Minotauro, encontrado nas ruínas de Conímbriga (2003)[9].

Em “Complutum”[10], na Espanha, encontra-se uma interessante ruína a “Casa de Hippolytus”[11], com suas piscinas e equitação destinada à formação de jovens aristocratas.

A amarelinha existiu entre gregos e romanos. Segundo Carneiro (2003), para os primeiros objetivava desenvolver o equilíbrio, pois seus praticantes deveriam saltar sobre uma pele de animal untada de óleo. Para os romanos, sua prática buscava para entreter as crianças durante a pavimentação das estradas que ligavam outras cidades à Roma .

Os registros descritos até aqui sobre diferentes civilizações mostraram poucos registros sobre a vida das crianças e de suas infâncias, mas, em geral evidenciavam aquelas que pertenciam à nobreza ou à aristocracia.

As observações descritas até aqui mostram que houve uma tendência em considerar a criança “natural” e, até, mesmo “universal”, ressaltando apenas seus aspectos biológicos. Portanto, foi vista enquanto um ser a-histórico fora do seu contexto social, havendo uma grande preocupação em registrar seu status mais do que sua cultura.

Também entre crianças indígenas brasileiras acostumadas a conviver com a natureza e seus elementos tais como folhas, pedras, objetos pequenos de cerâmica, pedaços de madeira e animais, os brinquedos e brincadeiras reproduzem a vida de suas comunidades, características comuns nas civilizações meso-americanas. Nesses dois contextos observa-se presença de bolas[12] e de bonecas confeccionadas com diversos materiais, de animais de estimação, de piões movidos por cordéis, de zarabatanas e de arcos e flechas.

Ignorar a infância também foi uma característica das sociedades medievais especialmente na Europa onde as crianças eram fontes de diversão do adulto. Daí o fato de que muitas pinturas elas foram retratadas como homens de tamanho reduzido. Segundo Ariès (1981), as primeiras representações surgiram na arte com a imagem dos anjos ou do menino Jesus e de Nossa Senhora Menina.

De acordo com Heywood (2004), tal forma representação ocorreu devido à grande influência exercida pela Igreja sobre a população através da presença da criança, portadora do pecado original.

Foi possível observar que no século XIV a iconografia fixou traços essenciais das etapas da vida das crianças,, características que permaneceram até o século XVIII.

Como na Idade Média os artistas do início da Idade Moderna retrataram mais os adultos do que os pequenos como demonstram as obras “La Virgen del caballero de Montesa(séc. XVI), de Paolo de San Leocadio. Contudo, a representação da criança religiosa observa-se na tela “Los niños de la Concha” de Bartolomé Esteban Murillo (1617-1682).

À infância associava-se a ideia de dependência explicitada na arte, porém do século XVII começou a aparecer cada vez mais.. Alguns brinquedos e brincadeiras eram reservados aos menores, outros se originaram do espírito de imitação em relação à vida adulta.

A arte não abandonou a ideia da criança religiosa, mas nas representações icônicas aparecia junto com a família, como “Los duques de Osuna y sus Hyjos” pintura de Francisco de Goya y Lucientes. Telas de crianças e suas famílias correspondiam às fotos de hoje, mas somente os mais ricos é que tinham condições para encomendá-las.

Posteriormente, as crianças foram retratadas como leigas, pertencentes à nobreza, identificadas nas obras “Las meninas” e “El príncipe Baltazar” de Diego Rodriguez de Silva y Velázquez (1599-1660) e as crianças brincando[13], de Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828) que se encontram no Museu do Prado.

Esse último pintou uma série que retrata as brincadeiras pequenos da época. Dentre elas encontram-se, cobra cega (La gallina ciega), briga de galos (Las gigantillas) e brincar com animais (Ninos con mastines) principalmente cães que, na pesquisa de Dodge e Carneiro (2007), é uma das brincadeiras mais praticadas pelas crianças de hoje.

Deve-se ressaltar a obra do pintor Peter Bruegel (*/1569)[14], o Velho, uma das telas mais famosas sobre as crianças e suas brincadeiras, “Jogos infantis”. Dizia um de seus compatriotas que o mundo e toda a sua atividade é apenas um jogo infantil. Na tela a humanidade foi vista miniaturizada, pelo artista que pintou uma cidade composta por duzentos e cinquenta crianças. Não queria destacar uma atividade em especial dispondo as figuras em linhas, mostrando ações fáceis de identificar como, pular carniça, cabra cega, salto,…. Outras são improvisadas e, outras ainda, exigem objetos simples como piões, bonecas, bexiga e tambor. Os rostos das personagens são semelhantes, o que não ocorre entre dois corpos. Como as telas de Bruegel continham mensagens secretas, talvez a obra “Jogos infantis” mostrava que dirigentes da cidade e das igrejas agiam como crianças..

A partir dos séculos XVI e XVII surgiu, segundo Ariès (1981), o sentimento de ”paparicação”, que se estendeu a todas as crianças, se evidenciado o gosto pela infância Entretanto, nos séculos XVIII e XIX, as autoridades europeias quiseram promover a indústria, esperando que ela empregasse mais pessoas que viviam na pobreza, justificando que um número maior crianças geraria mais força de trabalho. Isso provocou a exploração massiva do seu trabalho.

Nos séculos XIX e XX, os impressionistas Pierre Auguste Renoir (1841-1919) e Vincent Van Gogh (1853-1890) representaram crianças em situações reais, como “Rosa e Azul” e O filho do carteiro” respectivamente. A arte retratava o cotidiano das crianças, mas de forma romântica.

Com o ressurgimento as discussões sobre a infância entre os anos 80 e 90, os pequenos foram representados em seus contextos de vida como “Crianças do Açúcar” de Vik Muniz (1961)[15].

Afinal por que as crianças eram tão ignoradas?

Um dos principais motivos foi a falta de participação na economia e, hoje, há uma preocupação da sociedade que trata a criança enquanto um “vir a ser” e, não o que é. Esquece-se do passado e projeta-a em um futuro sem a percepção do presente por isso ela não tem voz e não tem quem a represente na sociedade.

Tanto a escola quanto a família pensam na sua preparação futuro e no seu desempenho profissional. A instituição está muito distante de se modificar ouvindo a voz das crianças e respeitando o direito de brincar.

Tais aspectos permitem repensar as infâncias nos dias de hoje e respeitar os pequenos enquanto cidadãos.

 Como brincam as crianças no mundo de hoje

Inicialmente, neste trabalho, apontou-se para as transformações sofridas no mundo atual, resultantes da crise da autoridade, da religião e da cultura.

Aa cultura da infância têm sofrido consequências da mundialização, nega-se o passado e projeta-se o futuro, mas não se pensa o presente.

Não existe cultura[16] sem que haja um elo entre passado, presente e futuro. Ela garante ao homem a continuidade da sua espécie.

A escola seria o local mais adequado para a realização das brincadeiras. Questiona-se, porém, por que o brincar foi banido do seu interior?

Dados os avanços da Psicologia, houve um maior conhecimento da sociedade, sobre a criança, as etapas do seu desenvolvimento e o papel do brincar nesse caminhar, mas nega-se a sua prática, razão pela qual tornou-se triste e desinteressante.

Profissionais são pressionados pelos pais que anseiam pelo rápido ingresso de seus filhos no mercado de trabalho esquecendo-se que a criança deve viver a sua infância.

O presente não se apoia no passado para construir um futuro melhor. Haverá espaço para o brincar?

As crianças de hoje, vivem outros contextos de vida, influenciadas pelas tecnologias da comunicação e da informação, diante das quais são passivas e vulneráveis ao excesso de apelo ao consumo. Vivem isoladas, desconhecendo regras de cooperação e de convívio social aprendidas nas brincadeiras.

Os pais não têm tempo e nem repertório para brincar com seus filhos, aspiram por receitas, como que os pequenos pudessem ser moldados.

Dentre as maiores alterações do brincar, hoje, de acordo com Carneiro e Dodge (2007), estão, a redução dos espaços e do tempo, a desvalorização da ação, a ausência de pares, o desconhecimento de repertórios e o esquecimento de que ele garantiu a continuidade da cultura.

Crianças transformam-se rapidamente em miniadultos, sem terem tempo para desfrutar da sua infância.

Segundo Maturana (2004) amor e brincadeira são modos de vida e relação. Eles são desdenhados e, por vezes, negados na sociedade do conhecimento, perdendo-se como fundamentos da vida diária.

Oferecer à criança a possibilidade de brincar é possibilitar à ela direito à infância.

Referências Bibliográficas

  • Arendt, Hannah (1996). Entre el pasado y el futuro: ocho ejercicios sobre la reflexión política. Barcelona: Península.
  • Ariès, Philippe (1981). Historia Social da criança e da família. 2ª ed. Rio de Janeiro. LTC.
  • Carneiro, Maria Angela Barbato (2003). Brinquedos e brincadeiras: formando ludoeducadores. São Paulo: Articulação /Universidade Escola.
  • Carneiro, Maria Angela Barbato e Dodge, Janine (2007). A descoberta do brincar. São Paulo: Melhoramentos/ Boa Companhia.
  • Carneiro, Maria Angela Barbato (2010). Memória e patrimônio. A cultura da infância e o brincar. In: Carneiro, Maria Angela Barbato (org.) Cócegas cambalhotas e esconderijos: construindo cultura e criando vínculos. São Paulo: Articulação /Universidade Escola. p-13-35.
  • Conímbriga: Guia das Ruínas (2003). 1ª ed. Porto: ASA.
  •  Corsaro, William (2011). Sociologia da infância. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed.
  •  Gran Enciclopedia de Bolsillo: El Imperio Egipcio (1996). Barcelona: Molino.
  • Heywood, Colin. (2004).Uma História da Infância. Porto Alegre: Artmed.
  • Hagen, Rose-Marie y Rainer ( s/d ) Arte egipcio. Madrid: Tachen.
  • Marrou, Henri Irenée (1973). História da Educação na Antiguidade. 4ª ed. São Paulo: E.P.U.
  • Maturana, Humberto e Verden-Zoller,Gerda (2011). Amar e brincar: Fundamentos esquecidos do humano. 3ª ed.São Paulo: Palas Athena.
  • Montes, Ana Lucía Sanchez. (s/d) La Casa de Hippolytus. Edición del Ayuntamiento de Alcalá de Henares/Dirección General de Patrimonio Histórico de la Comunidad de Madrid y el Fondo Social Europeo.
  • Museo del Prado: Pintura Española (s/d). 19ª ed. Barcelona: Escudo de Oro.
  • Stearns, Peter N.(2006). A Infância. São Paulo: Contexto.
  • Vygotsky, Lev Semyonovitch (1988). A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes.

 


[1] Os museus visitados foram Museu do Louvre, Museu D’Orsay, Museu do Prado, Museu Reina Sofia, Museu da Cataluña, Museu de Aranjuez, Museu de Tarragona, Museu de la Muñeca ( Maiorca) Museu del Juguete de Figueres, Ruínas de Sesosbriga, Museu do Brinquedo de Portugal (Sintra), Museu de S. Petesburgo, Museu Antropológico do México, Ruínas Maias Tulum e Chizen Itza, Museu del Papalote México) Museu de Arte Moderna e Museu do Ouro em Bogotá, Museu Afro Brasileiro, Museu de Artes de São Paulo (MASP), Museu de Arte Moderna (MAM), Etnográfico da Universidade de São Paulo, Museu del Niño .

[2] Grifos nossos

[3] Grifos nossos.

[4] Palavras do estudioso.

[5] Termo criado e utilizado por Vygotsky em seus estudos.

[6] Puppae eram três pequenas bonecas romanas esculpidas em madeira e que cabiam na palma da mão

[7] No Museu de Tarragona (Espanha) existem inúmeros objetos de barro feitos para as crianças brincarem

[8] Siurells são apitos coloridos usados por crianças romanas comuns na região de Maiorca

[9] Conímbriga é um sítio arqueológico conquistado pelos romanos em Portugal por volta de 136 a.C. que dista aproximadamente 14 km de Coimbra em Portugal

[10] Complutum foi uma cidade romana cujas ruinas foram encontradas em Alcalá de Henares na Espanha

[11] Hippolytus, um importante pintor e mosaicista africano, da Tunísia, que viveu em Complutum durante algum tempo para trabalhar na decoração de um colégio de jovens

[12] Entre os indígenas as bolas mais comuns são as confeccionadas com caucho, substância extraída da seringueira.

[13] Algumas obras do artista são “Muchachos jugando a los soldados”,”Gargantillas”, “Muchachos trepando a un árbol”.

[14] (*) Não se sabe exatamente a data de nascimento de Peter Bruegel.

[15] Vik Muniz é um artista plástico, nascido em São Paulo, famoso por utilizar materiais inusitados em suas obras, tais como lixo, açúcar e chocolate.

[16] Cultura, neste trabalho vai para além da possibilidade de usar símbolos que compõem as diferentes formas de comunicação humana Dela fazem parte os aspectos físicos e materiais, institucionais, convencionais e relacionais da sociedade.

Publicado en Revista No. 13 - 14

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